Relacionamentos saudáveis são sobre cuidado
- Irina Talbot

- há 1 hora
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No Dia dos Namorados, é comum falar sobre relações amorosas.

E talvez essa seja uma boa oportunidade para ampliar a conversa e olhar para um outro tipo de relacionamento que ocupa uma parte significativa da vida das pessoas: o relacionamento com o trabalho e com as organizações.
Porque, no fim, a lógica se repete. Relacionamentos saudáveis se constroem no cuidado.
O mito do controle

Durante muito tempo, organizações foram estruturadas a partir da ideia de controle. E isso ainda é muito presente nas estruturas e culturas organizacionais.
Controle de processos;
Controle de desempenho;
Controle de comportamento;
Controle de resultados.
E, muitas vezes, isso acaba se estendendo também para a forma como as relações são conduzidas:
lideranças que centralizam decisões
culturas que desencorajam o erro
ambientes onde falar custa caro
estruturas onde silêncio é confundido com engajamento
À primeira vista, esses ambientes podem parecer "organizados e funcionais". Contudo, sob uma perspectiva psicológica, o que se estabelece não é uma relação saudável, mas um vínculo sustentado por medo.
Como já amplamente discutido na literatura de comportamento organizacional (Edmondson 1999; 2018), contextos baseados predominantemente em controle tendem a gerar conformidade, mas não, necessariamente, comprometimento.
Além disso, esse tipo de ambiente ativa respostas adaptativas de defesa (como evitação, hipervigilância e redução da autonomia) comprometendo progressivamente o pensamento crítico, a aprendizagem e a qualidade das decisões.
Onde o cuidado entra — e por que ele ainda é confundido
Quando falamos de cuidado dentro das organizações, ele ainda costuma ser interpretado de formas equivocadas.
Alguns entendem cuidado como excesso de flexibilidade. Outros, interpretam como falta de cobrança. Ainda outros até pensam que se trata de “passar a mão na cabeça”.
No contexto corporativo, o cuidado pode ser compreendido como um conjunto de práticas estruturadas que reduzem riscos psicossociais e sustentam um ambiente de trabalho mais seguro. Esse conceito dialoga diretamente com o que Amy Edmondson define como segurança psicológica: a percepção de que é possível se expor, contribuir e até errar sem medo de retaliação.
Cuidar é:
garantir condições psicológicas e físicas seguras de trabalho;
oferecer clareza e consistência nas expectativas;
sustentar decisões difíceis com transparência;
preparar lideranças para lidar com a complexidade do comportamento humano;
construir ambientes em que a comunicação não esteja associada a ameaça.
Cuidado não "enfraquece a gestão". Na prática, é um dos principais sustentadores da gestão.
Relações organizacionais também são relações (Psicológicas!)
Existe um ponto pouco explorado nas discussões sobre cultura organizacional: as empresas não gerenciam apenas processos. Elas sustentam relações.
E toda relação gera impacto.
Quando o vínculo com o trabalho é marcado por: pressão constante, ausência de escuta, insegurança psicológica, falta de previsibilidade... o efeito não é apenas operacional.
Ele aparece em forma de:
adoecimento;
afastamentos;
rotatividade;
perda de confiança;
desconexão com o propósito.
Esses não são “efeitos colaterais”. São consequências diretas de como a relação foi construída.
Alinhado ao que vem sendo apontado por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde, esses fatores já são reconhecidos como riscos psicossociais relevantes, com impacto direto na saúde mental e no desempenho sustentável das organizações.
Cuidado também é estratégia
Ainda existe uma separação artificial entre o que é humano e o que é estratégico dentro das organizações. Como se o cuidado estivesse no "campo do emocional", enquanto os resultados pertencessem ao "campo da racionalidade".
Na prática, essa separação não se sustenta. Ambientes onde o cuidado é estruturado tendem a apresentar:
maior previsibilidade;
mais segurança psicológica;
melhor tomada de decisão;
retenção de talentos;
culturas mais sustentáveis.
Cuidado, portanto, não é um valor abstrato. É um ativo organizacional. Do ponto de vista psicológico, relações seguras ampliam a capacidade cognitiva disponível para resolução de problemas, inovação e cooperação. Nesse sentido, o cuidado deixa de ser um valor abstrato e passa a ser compreendido como um ativo organizacional.
E o que isso tem a ver com o momento atual?

Com a ampliação das exigências relacionadas à gestão de riscos psicossociais, torna-se cada vez menos viável para as organizações ignorar o impacto das suas dinâmicas relacionais.
O que antes era tratado como:
clima organizacional;
estilo de liderança;
ou perfil cultural;
passa, agora, a ter implicações mais concretas:
legais;
reputacionais;
financeiras;
e, inevitavelmente, humanas.
Nesse cenário, o cuidado deixa de ser um diferencial competitivo. Ele passa a ser uma responsabilidade formal — e, em muitos casos, também uma exigência regulatória.
A pergunta que fica
Se toda organização constrói, de alguma forma, uma relação com as pessoas que fazem parte dela, vale refletir: essa relação está baseada em controle ou em cuidado?
Porque, no fim, assim como em qualquer outra relação, não é "o discurso" que sustenta o vínculo. São as escolhas diárias.
Referências
EDMONDSON, Amy. Psychological safety and learning behavior in work teams. Administrative Science Quarterly, v. 44, n. 2, p. 350–383, 1999. Disponível em: <Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams - Amy Edmondson, 1999>. Acesso em 06/2026;

Por Irina Talbot. Consultora na Éssi Consultoria, com atuação em diversidade, cultura organizacional e desenvolvimento de pessoas. Formada em Gestão Pública e graduanda em Psicologia, é coautora das obras Diversidade e Inclusão e Suas Dimensões, com foco em vieses inconscientes e inteligência emocional. Dedica sua atuação à construção de ambientes organizacionais mais seguros, conscientes e sustentáveis.

